Enquanto indígenas denunciam homens armados, ameaças e até sequestro na Amazônia, o discurso de soberania do Planalto parece ficar restrito aos microfones: na fronteira, quem pede socorro são os brasileiros.
A Amazônia brasileira está dando sinais de alerta — e não é alerta ambiental, climático ou diplomático. É alerta de segurança.
Comunidades indígenas do município de São Gabriel da Cachoeira, no extremo noroeste do Amazonas, denunciaram a presença de homens armados supostamente vindos da Colômbia. Os relatos incluem ameaças com armas de fogo, intimidação, restrições à circulação, invasão de roças e até a notícia de que uma liderança indígena teria sido retida para servir de guia aos grupos armados. O Ministério Público Federal abriu investigação e cobrou providências das Forças Armadas e da Polícia Federal. (UOL Notícias)
E aqui começa uma pergunta incômoda:
Onde está o Governo Federal?
Onde está o presidente Lula?
Onde está a reação política proporcional à gravidade do que está sendo denunciado?
O contraste chega a ser quase irônico. No discurso de 7 de Setembro, o presidente falou em soberania nacional e afirmou que o Brasil é um país soberano. (Folha de S.Paulo)
Mas soberania não pode ser apenas palavra bonita em pronunciamento oficial.
Soberania também significa impedir que homens armados estrangeiros circulem pelo território brasileiro intimidando cidadãos brasileiros.
Soberania significa proteger comunidades indígenas isoladas.
Soberania significa controlar as fronteiras.
Soberania significa não permitir que organizações criminosas transformem rios e florestas brasileiras em corredores internacionais do crime.
E, principalmente, soberania significa que quem manda no território brasileiro é o Estado brasileiro — não guerrilheiros, narcotraficantes ou qualquer organização armada estrangeira.
O alerta não partiu de um adversário político do governo. Partiu das próprias comunidades da região e chegou ao Ministério Público Federal, que solicitou atuação urgente dos órgãos responsáveis pela segurança territorial. (18 Horas)
Segundo relatos divulgados pela imprensa, lideranças locais chegaram a estimar a presença de aproximadamente 2 mil homens. Esse número ainda não foi confirmado oficialmente e deve ser tratado como estimativa. Também não há, até o momento, identificação oficial definitiva da organização armada envolvida. (Forças Terrestres)
Mas mesmo que o número seja muito menor, a pergunta continua de pé:
Quantos homens armados estrangeiros precisam entrar no território brasileiro para que Brasília considere a situação grave?
Dez?
Cem?
Mil?
Ou será necessário que alguma comunidade indígena seja atacada de forma ainda mais grave para que o assunto deixe de ser apenas uma ocorrência de fronteira e passe a ser tratado como questão de segurança nacional?
O Brasil conhece esse filme.
Em 1991, integrantes das FARC atacaram o Destacamento Traíra, do Exército Brasileiro, na Amazônia. O episódio provocou uma operação militar brasileira contra os guerrilheiros.
Mais de três décadas depois, a história volta a produzir um sinal incômodo: a fronteira amazônica continua sendo um território cobiçado por organizações criminosas e grupos armados.
A diferença é que hoje o crime organizado está muito mais estruturado, conectado ao narcotráfico, ao garimpo ilegal e às redes criminosas internacionais.
E é justamente por isso que o silêncio político diante de denúncias dessa natureza precisa ser questionado.
Não se trata de pedir guerra.
Não se trata de defender aventuras militares.
Trata-se de exigir que o Estado brasileiro faça aquilo que qualquer Estado soberano deveria fazer: proteger seu território e sua população.
O presidente Lula pode falar sobre soberania quantas vezes quiser.
Mas, quando homens armados estrangeiros são denunciados circulando em comunidades brasileiras, o brasileiro tem o direito de perguntar:
A soberania brasileira termina onde começa a floresta?
Ou Brasília simplesmente ainda não percebeu que o problema já chegou à nossa porta?
A Amazônia não precisa de discursos.
Precisa de presença do Estado.
Precisa de inteligência.
Precisa de Forças Armadas equipadas.
Precisa de Polícia Federal atuante.
Precisa de proteção às comunidades indígenas.
E precisa, acima de tudo, de um governo que compreenda que fronteira não é linha desenhada no mapa.
Fronteira é território.
E território sem Estado vira oportunidade para o crime.
O Brasil não pode esperar que a ameaça cresça para depois descobrir que ficou grande demais para ser combatida.
Porque, quando a soberania é colocada à prova, não basta fazer pronunciamento em rede nacional.
É preciso estar presente onde os brasileiros estão pedindo socorro.








