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A fiscalizadora e o barro na bota

Por Aldrovando Cantagalo. Bastaram uma câmera, uma chuva e uma propriedade rural para transformar barro em palanque. No interior, enquanto a proprietária trabalhava ...[ Leia completo ]

Por Aldrovando Cantagalo.

Bastaram uma câmera, uma chuva e uma propriedade rural para transformar barro em palanque. No interior, enquanto a proprietária trabalhava de Havaianas entre vacas e lama, a fiscalizadora chegou acompanhada de seu inseparável escudeiro — o fiscalizador de sapato social — pronta para encontrar um problema, produzir indignação e apontar um culpado.
O conflito estava armado: de um lado, quem vive diariamente a realidade do campo; do outro, quem apareceu para fiscalizá-la sem abrir mão do figurino de quem pretende sair da lama com a sola limpa.
Sim, sapato social.
Porque existe uma diferença fundamental entre quem vai trabalhar no barro e quem vai fazer uma visita ao barro.
Quem trabalha leva bota.
Quem fiscaliza leva sapato.
E, se possível, que o sapato volte limpo para casa, como se tivesse ido a uma reunião de condomínio, não a uma propriedade rural.
O problema é que, naquele dia, São Pedro não estava colaborando com o figurino.
A chuva havia transformado o local onde as vacas aguardavam a ordenha num verdadeiro Spa de Lama Rural — pacote completo, esfoliação natural, banho de imersão e nenhum funcionário responsável pelo resgate.
A fiscalizadora entrou.
E entrou mesmo.
Foi barro na canela, barro na roupa, barro por todo lado.
Se permanecesse mais alguns minutos, seria necessário emitir uma ordem de busca, contratar uma retroescavadeira e declarar a ocorrência patrimônio histórico da fiscalização.
Enquanto isso, o escudeiro permanecia estrategicamente protegido pelo sapato social, provavelmente calculando mentalmente qual seria o melhor ângulo para não sujar a sola — porque até a lama, aparentemente, precisa respeitar o protocolo cerimonial e pedir autorização antes de encostar no couro.
Mas a cena mais curiosa não estava nem na lama.
Estava na comparação.
A proprietária da propriedade, aquela que realmente convive com a situação, estava de Havaianas.
Havaianas!
Calma, tranquila, serena.
Parecia estar esperando o café passar, não administrando uma crise nacional de barro.
A fiscalizadora, por outro lado, parecia ter sido convocada para uma audiência pública com o próprio pântano — e o pântano, pelo visto, não havia lido o regimento interno.
E aí surge a pergunta que ninguém fez, mas todo mundo pensou:
quem estava mais incomodada com o barro?
A proprietária, que vive aquilo?
Não.
A fiscalizadora, que estava visitando?
Com certeza.
É uma situação curiosa.
A dona da propriedade estava tranquila.
O fiscalizador estava mais tranquilo que água de poço.
E a fiscalizadora estava indignada, atolada e discursando, como se a lama tivesse sido encomendada por licitação para sabotar sua narrativa — com direito a entrega atrasada e ausência de responsável técnico.
A essa altura, só faltava o barro pedir filiação partidária, a vaca apresentar requerimento e a poça solicitar direito de resposta. Se bobear, ainda exigiria microfone, assessoria de imprensa e uma cadeira na comissão de assuntos molhados.
Porque, na vila, existe uma capacidade extraordinária de transformar qualquer situação em material político.
Choveu?
Culpa da administração.
Não choveu?
Culpa da administração.
Tem barro?
Problema da administração.
Não tem barro?
Também deve ter alguma coisa errada.
Se deixar, daqui a pouco vão convocar uma CPI para investigar por que a vaca pisou na poça — e talvez ouvir a poça como testemunha, desde que ela compareça devidamente enlameada e acompanhada de advogado.
E não basta fiscalizar.
Tem que produzir conteúdo.
Tem que reclamar.
Tem que apontar.
Tem que fazer pose de indignação.
Porque algumas pessoas descobriram uma profissão que não exige diploma, concurso, experiência nem carteira assinada:
crítico oficial da administração.
O expediente começa cedo e termina quando acaba o assunto no grupo de WhatsApp.
E tem uma vantagem: não precisa resolver nada.
Resolver dá trabalho.
Criticar é muito mais confortável.
Principalmente quando se está de sapato social e a lama está a uma distância segura da sola — ou, pelo menos, estava até São Pedro decidir participar da fiscalização.
O problema é que a vida real não funciona como discurso político.
No interior, quando chove, o barro aparece.
A vaca não quer saber de eleição.
A Havaiana não quer saber de oposição.
O sapato social só quer sobreviver.
E a proprietária quer simplesmente conseguir trabalhar.
Mas sempre aparece alguém disposto a transformar a lama em palanque, como quem olha para uma poça e enxerga imediatamente um horário eleitoral com trilha sonora, nota de rodapé e previsão de pronunciamento em cadeia municipal.
Talvez seja por isso que aquela cena tenha sido tão simbólica.
De um lado, quem vive a realidade do campo, de Havaianas e sem fazer drama.
Do outro, quem chega para fiscalizar, se atola até quase desaparecer e ainda encontra tempo para fazer política.
É quase uma modalidade olímpica:
Nado sincronizado em lama, categoria fiscalização eleitoral — nota máxima em indignação, zero em flutuação e mínima em aderência à realidade.
E o mais interessante é que, enquanto muita gente na vila está trabalhando, produzindo, levantando cedo e enfrentando as dificuldades de cada dia, existem dois personagens que parecem ter encontrado uma atividade em tempo integral:
procurar defeito e reclamar.
Não precisam de máquina.
Não precisam de ferramenta.
Não precisam de bota.
Só precisam de um problema.
Porque onde existe uma dificuldade, eles enxergam uma oportunidade.
Não necessariamente para resolver.
Para fazer discurso.
E assim segue a vida na vila.
Uns colocam a mão na massa.
Outros colocam o pé no barro.
E alguns preferem colocar a política no meio de tudo, como se até a lama precisasse de palanque, legenda e pronunciamento oficial — talvez com direito a faixa inaugural e placa de “obra em andamento”.
Só existe uma coisa que ainda não conseguiram fiscalizar:
o próprio ridículo.
Talvez porque, para isso, seria necessário olhar para o espelho.
E espelho, convenhamos, não é território muito seguro para quem vive procurando defeito nos outros. Afinal, dependendo do ângulo, até o sapato social pode aparecer sujo.

Fonte: Obra de ficção com a finalidade de entretenimento qualquer semelhança é mera coincidência.

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