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O fim de uma era

* Germano Vieira Falta um dia, e eu escrevo antes do resultado de propósito. Aposto na vitória de Flávio Bolsonaro no domingo, e ...[ Leia completo ]


* Germano Vieira

Falta um dia, e eu escrevo antes do resultado de propósito. Aposto na vitória de Flávio Bolsonaro no domingo, e apostaria antes de qualquer pesquisa desta semana, porque as pesquisas brasileiras erraram na mesma direção três eleições seguidas. Em 2022, o Datafolha e o Ipec davam quatorze pontos de vantagem a Lula na véspera do primeiro turno, e a diferença real foi de 5,23. Bolsonaro apareceu 4,4 pontos acima das estimativas. Neste primeiro turno de 2026, as nove pesquisas nacionais da reta final subestimaram Flávio, com erro médio de 3,08 pontos.

Não é fraude, e não é preciso inventar conspiração. É um vício de método. Os institutos corrigem amostra, ponderam escolaridade e renda, e continuam sem alcançar um eleitor que não responde a pesquisador de telefone. Esse eleitor não é anomalia, é uma fatia grande e crescente do país, e ela vota. Quando faltam três pontos na conta e a disputa está tecnicamente empatada, três pontos são a eleição.
O diagnóstico que segue não depende do resultado de domingo. Depende dos números, e esses já estão publicados.

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O que termina

Não termina um governo. Termina um método de governar.

Termina a ideia de que gastar é o mesmo que resolver, de que a intenção substitui o resultado e de que a boa intenção absolve o resultado ruim. Trinta anos de uma intuição só: o Estado é o motor, e o país se move quando o orçamento se move. O Brasil investe 16,5% do PIB, uma das menores taxas do G20, e paga cerca de 88 bilhões de reais de juros em um único mês. No mesmo mês, transfere 13 bilhões ao Bolsa Família. Um país que trata a despesa com juros como fatalidade e a despesa com gente como escolha está fazendo a escolha errada todos os dias, e chama isso de responsabilidade fiscal.

A era que termina é a era da despesa de realeza com a régua de resultado baixa. Não é retórica. Gastamos 4,5% do PIB em educação, mais que a média dos países ricos, e três em cada quatro jovens de quinze anos não conseguem resolver um problema matemático elementar, segundo o PISA divulgado em setembro. O Brasil tem mais professor por aluno que a média da OCDE, tem quase universalização da matrícula e não tem aprendizado. O insumo chegou. O produto não saiu.

O pobre não é o problema

É preciso dizer isso com clareza, porque a direita erra quando não diz: dezenove milhões de famílias recebendo transferência é um quarto das casas brasileiras, e nenhuma família escolhe depender. Quem escolheu foi o desenho. O programa nasceu como ponte, com contrapartida de escola e vacina, e virou endereço final quando a porta de saída deixou de existir. Sair para o emprego formal pode reduzir a renda líquida da família, e a decisão racional passa a ser ficar. Isso não se corrige com discurso moral nem com corte linear. Corrige-se com engenharia decente: decaimento do benefício conforme a renda sobe, prazo, contrapartida de qualificação para quem está em idade ativa. Trate o cidadão como adulto e ele responde como adulto.

A ferida mais funda, porém, está em outro lugar e ninguém quer olhar. Entre 2015 e 2025, o desempenho do aluno brasileiro favorecido subiu e o do desfavorecido ficou parado. A distância entre os dois cresceu aqui enquanto diminuiu nos países ricos. A escola brasileira deixou de ser elevador social e virou amplificadora de origem. Isso destrói a meritocracia antes de ela nascer, porque um país que não seleciona por competência seleciona por berço, e berço é o oposto de tudo o que queremos ser.

Mas o Brasil já provou que sabe consertar. Onde o Estado montou máquina com meta, avaliação e consequência, o resultado veio por dezoito anos seguidos, atravessando governos de campos opostos: o Ideb dos anos iniciais subiu de 3,8 para 6,3. Onde não montou, nada aconteceu: o ensino médio está em 4,5, abaixo da meta prevista para 2017. A variável nunca foi dinheiro. Foi existir aparelho com alvo e responsabilidade. É a lição da Embrapa, é a lição da Polônia em 1999, é a lição de Portugal e da Estônia. Nenhum desses países fez revolução econômica. Fizeram reforma com método, em uma década, e passaram à frente de nós.

A canga

O brasileiro é criativo e trabalhador. Ele trabalha apesar do Estado, e é essa a frase que precisa substituir tanto o discurso do coitado quanto o discurso do empreendedor heroico. Não há heroísmo em pagar a conta mais alta do mundo para produzir.

A canga tem nome e tem conserto técnico. Custo do capital entre os mais altos do planeta, que define quem constrói e quem não constrói. Sistema tributário que pune quem produz e remunera quem litiga. Licenciamento que trata empreendedor como suspeito e transforma dois anos de autorização em dois anos de prejuízo. Insegurança jurídica que converte contrato em aposta e previsibilidade em privilégio de quem tem advogado caro. Nada disso exige ideologia. Simplificar imposto é aritmética. Reduzir o custo do capital é trajetória fiscal. Acelerar licença é gestão. Dar previsibilidade ao Judiciário é cumprir prazo e respeitar instância, e isso não é reivindicação de empresa grande: é a condição para o pequeno conseguir crédito.

O saneamento mostra tudo em um único caso. Existe meta legal de universalização até 2033, existe diagnóstico, existe tecnologia e existe demanda. O gargalo é capital e licença. Quem trava o investimento trava o emprego que viria com ele, e essa conta nunca aparece no orçamento. Aparece na vida das pessoas, um pouco por dia, por trinta anos.

Por que liderança nova importa

Não por estética, por dívida. Quem tem trinta ou quarenta anos não assinou o contrato que produziu esse quadro, e por isso não precisa defendê-lo para preservar a própria biografia. Uma liderança formada fora do aparelho deve sua carreira ao resultado, não ao padrinho, e essa é a única credencial que interessa no momento em que o país precisa reconstruir capacidade de execução.

E existe um dado que explica por que a mudança não virá do campo que sai. Todo partido que se converte em aparelho de Estado forma administradores, e administrador não ganha eleição nacional. A ausência de herdeiro não é um vácuo a ser preenchido. É o resultado de vinte anos de seleção pelo critério errado. Herdeiro declarado de líder dominante quase nunca vence, e quando vence, governa contra a própria herança.

A espera
Encerra-se no domingo a era em que o Brasil esperou. Esperou o Estado resolver, esperou o líder certo, esperou o ciclo das commodities, esperou o mundo ficar generoso, esperou o juro cair sozinho. A espera é a canga mais pesada de todas, porque não deixa marca no corpo e não aparece na estatística.

O país que sai dessa era não precisa de milagre. Precisa de coerência. Despesa compatível com a nossa renda, não com a nossa vaidade. Educação com meta, avaliação e consequência. Estado que garante contrato em vez de garantir padrinho. Liberdade para empreender, com regra clara e igual para todos, inclusive para o pequeno que hoje não tem nem uma nem outra.

O brasileiro nunca pediu muito. Pediu que a conta fechasse e que o esforço valesse a pena. É uma demanda modesta. Foi, até agora, a única que o país não conseguiu atender.

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Fonte:Blog do Tupan

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