Na pequena cidade onde todo mundo sabe da vida de todo mundo — e ainda inventa o resto — existia uma figura digna de entrar para o elenco perdido das antigas novelas infantis. Dizem até que, quando alguém olha bem para ele, consegue ouvir ao fundo a musiquinha das Chiquititas.
O tempo passou. As crianças cresceram, os atores envelheceram, alguns foram para a televisão, outros sumiram do mapa e teve até personagem que virou nome de criança em homenagem carinhosa. Só ninguém imaginava que uma dessas homenagens acabaria virando servidor público especializado em absolutamente nada.
O cidadão conseguiu a proeza de ser concursado num cargo que, segundo os colegas mais sinceros, produz menos resultado que ventilador desligado. Enquanto o mundo trabalha, ele circula. Enquanto o povo resolve problema, ele fiscaliza corredor. E enquanto alguém tenta tocar serviço, ele aparece com celular na mão, filmando, fotografando e anotando tudo como se fosse correspondente internacional da ONU.
A rotina dele é intensa. Sai do setor sem deixar rastros de produtividade e comparece em reuniões que não têm qualquer relação com sua função. Aliás, função é uma palavra que ele costuma usar apenas para se defender: — “Isso não é atribuição do meu cargo.” Mas curiosamente fotografar reunião dos outros parece ser.
Durante muito tempo viveu feliz, tranquilo e silencioso, principalmente enquanto as vantagens pingavam como torneira mal fechada. Bastou a fonte secar para nascer um revolucionário de corredor. Transformou-se no fofoqueiro oficial da cidade, daqueles que sabem até quantas colheres de açúcar o prefeito colocou no café.
E como toda tragédia cômica precisa de parceria, encontrou abrigo num blog tão especializado em confusão quanto ele. Formaram uma dupla quase folclórica: um escreve o que não sabe, o outro fotografa o que não entende.
O mais impressionante não era a inutilidade funcional. Era a capacidade estratégica de atrapalhar. Há pessoas que trabalham. Há pessoas que ajudam quem trabalha. E há ele: um homem determinado a transformar qualquer ambiente em auditório de reclamação.
Consta ainda — e isso já virou lenda urbana — que o cidadão possui uma rivalidade histórica com a descarga do banheiro. Nunca venceu uma disputa sequer. Alguns dizem que a descarga desistiu da carreira pública depois de conhecê-lo.
No fim das contas, aquele antigo “personagem de novela infantil” acabou se tornando um clássico tipo municipal: o fiscal da vida alheia, repórter de corredor, comentarista de reunião e especialista em não fazer rigorosamente nada. Mas sempre muito ocupado. Afinal, falar dos outros dá um trabalho danado.
Fonte: História fictícia com a finalidade de entretenimento qualquer semelhança com a realidade é mero fruto do acaso.







