Todos os anos, 370 mil brasileiros morrem por doenças não transmissíveis em razão do atraso no diagnóstico e da desassistência no SUS. O dado, apontado pelo Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS), não é neutro nem abstrato. Ele representa um genocídio silencioso por omissão, que atravessou os governos do PT, do primeiro mandato de Lula até o afastamento de Dilma Rousseff, e foi concluído pelo MDB, aliado histórico do partido, mantendo intacta a lógica que mata.
É preciso encerrar a farsa do discurso seletivo. Lula governou o Brasil por dois mandatos completos, Dilma Rousseff foi eleita para dois, mas não concluiu o segundo, afastada em um processo que não rompeu com o projeto de poder vigente: o MDB, sócio político do PT por mais de uma década, assumiu e concluiu o governo. Ou seja, o mesmo campo político permaneceu no comando, sem ruptura estrutural na política de saúde e sem enfrentamento real da máquina que produz mortes evitáveis.
Portanto, não existe intervalo histórico para jogar a culpa. O poder foi contínuo, os aliados eram os mesmos, o Congresso era o mesmo e o problema permaneceu intocado. As mortes continuaram ocorrendo enquanto discursos sobre sensibilidade social eram repetidos em cadeia nacional.
O Estado sempre soube. O Instituto Nacional do Câncer (INCA) apontou reiteradamente que o custo do tratamento oncológico cresce 37% quando o diagnóstico é tardio — atraso causado pela própria falha do sistema. O país sempre soube que precisava ampliar em mais de 60% as biópsias para câncer de mama. Esses dados existiam durante Lula 1, Lula 2, Dilma 1, Dilma 2 (interrompido) e o governo concluído pelo MDB aliado. Não faltou diagnóstico técnico. Faltou ruptura política com a normalização da morte.
A concentração de médicos especialistas escancara a mesma omissão prolongada. A Demografia Médica 2025 apenas confirma o óbvio ignorado por anos: especialistas concentrados em poucos estados, majoritariamente na rede privada, enquanto apenas 10% atendem exclusivamente pelo SUS. Essa distorção não é herança recente — foi mantida sob governos petistas e por seus aliados diretos, sem enfrentamento estrutural.
Agora, no terceiro mandato, Lula tenta reembalar o problema com o programa Agora Tem Especialistas. Mutirões, carretas, telessaúde, credenciamento da rede privada, promessa de 121 aceleradores lineares até 2026. Medidas necessárias, mas que funcionam como confissão histórica: se isso é possível agora, foi conscientemente adiado durante anos de poder contínuo.
A pergunta que desmonta qualquer narrativa é direta: quantas dessas 370 mil mortes por ano ocorreram enquanto o PT governava e o MDB, seu aliado histórico, sustentava e concluía o projeto no poder? Quantas vidas foram perdidas enquanto o sistema era administrado para não colapsar politicamente, ainda que colapsasse humanamente?
A grande mídia ajuda a diluir a responsabilidade. Chama genocídio de “fila”, chama omissão de “complexidade”, chama morte evitável de “desafio estrutural”. Não há luto oficial. Não há contagem diária. Não há responsabilização proporcional ao tamanho da tragédia. A morte do pobre esperando atendimento segue invisível.
Mas o fato é inescapável: quando um campo político governa de forma contínua, direta ou por seus aliados, ele herda integralmente as consequências. E quando o Estado sabe que a demora mata e mesmo assim mantém a demora como regra, isso não é falha técnica — é escolha política prolongada.
O PT gosta de reivindicar o SUS como conquista histórica. Pois então que aceite o pacote completo. Quem reivindica a obra precisa assumir também o sangue invisível derramado pela omissão.
370 mil mortos por ano não são estatística. São denúncia.
E enquanto Lula tenta reescrever a história com novos programas, o genocídio silencioso segue seu curso — previsível, evitável e politicamente tolerado.
Porque quando o poder administra a morte em vez de enfrentá-la, o nome disso não é política pública. É omissão histórica — com continuidade, aliados e assinatura.
Fonte: Governo Federal amplia o atendimento à população e reduz tempo de espera no SUS — Planalto



