Se a intenção do vereador Luiz Eduardo na última sessão da Câmara era posar como o herói vigilante da ordem pública, o tiro acabou saindo pela culatra — e pela culatra de um relógio bastante desatualizado.
Em pronunciamento na tribuna por volta das 18h de segunda-feira, o parlamentar subiu o tom para questionar o Executivo municipal sobre o episódio de apedrejamento e destruição de vasos na praça da cidade. Cobrando “atitude” da gestão sobre a conduta e a situação do responsável pelo vandalismo, o vereador parecia ignorar um detalhe sutil, porém crucial: às 16h do mesmo dia — duas horas antes do seu discurso entusiasmado —, o processo de internação do cidadão em questão já havia sido devidamente concluído pela Secretaria de Saúde.
Diante do barulho provocado na sessão, o prefeito Fernando Mierzva e a equipe técnica da Saúde vieram a público para colocar os pingos nos is e esclarecer o passo a passo de um procedimento que não nasceu do dia para a noite — tampouco por impulso do discurso parlamentar.
Câmeras, Polícia e Justiça
De acordo com a administração municipal, o Executivo cumpriu à risca o seu papel legal desde o minuto em que o ato na praça ocorreu. As imagens do sistema de monitoramento foram prontamente levantadas e entregues à Polícia Militar, resultando na identificação e prisão do autor — fato que chegou a ser noticiado em âmbito estadual.
No entanto, como lembrou o prefeito, a prefeitura não detém poder de polícia nem autoridade judiciária para manter qualquer pessoa presa. Uma vez liberado pela Justiça, o indivíduo retornou às ruas, dando início à atuação da rede de assistência e saúde pública, que já o acompanhava há mais de 20 dias.
A saga pela vaga e a matemática do relógio
A equipe de Saúde detalhou o longo trâmite burocrático para conseguir a contenção e o tratamento adequado ao paciente, que sofre de surtos e já vinha recebendo medicação adequada sob acompanhamento médico.
Diante da insuficiência do tratamento ambulatorial, a prefeitura acionou o Poder Judiciário, reuniu a rede de proteção, consultou especialistas em Guarapuava e solicitou formalmente a vaga no sistema estadual de leitos — esfera responsável por determinar quando e onde o paciente é acolhido. A gestão municipal chegou a acionar o Ministério Público buscando uma internação compulsória.
A saga culminou na própria segunda-feira:
16h38: O leito foi devidamente credenciado no sistema do Estado.
16h49: A equipe municipal contatou o hospital psiquiátrico, apresentou o caso e obteve o aceite médico.
18h00: Enquanto o parlamentar usava a tribuna para exigir providências, a vaga já estava garantida.
04h00 (madrugada de terça-feira): O paciente seguiu viagem sob acompanhamento de equipe técnica e motorista para o internamento.
Ética x Alarde
O prefeito Fernando Mierzva lamentou a necessidade de vir a público expor detalhes do prontuário e do histórico médico de um cidadão, destacando que a prefeitura prezava pela ética e pelo respeito, evitando transformar dramas de saúde mental em espetáculo político ou alarde.
Para a população, fica a explicação transparente de todo o trâmite legal e sanitário. Para o vereador, fica a lição de que, na política moderna, checar os fatos (e o relógio) antes de ir ao microfone evita o desconforto de cobrar o que já foi feito.







