Uma explosão doméstica ou um acidente de trabalho com eletricidade pode transformar uma vida em poucos segundos. As queimaduras graves resultantes desses acidentes exigem cirurgias, tratamento intensivo e um longo processo de recuperação, realidade enfrentada por centenas de paranaenses todos os anos. Nesses casos, o atendimento especializado faz toda a diferença.
No Paraná, o primeiro socorro a um paciente vítima de queimaduras é feito pelo serviço de emergência de referência da região, com foco na estabilização clínica. Nessa etapa inicial, as equipes priorizam a manutenção das funções vitais, como respiração e circulação, para reduzir riscos e garantir as melhores condições possíveis nas primeiras horas após o acidente.
Esse atendimento pode ocorrer em prontos-socorros ou Unidades de Terapia Intensiva (UTI) de hospitais de referência para trauma. Após a estabilização inicial e o afastamento do risco imediato de morte, a equipe médica avalia a necessidade e o momento mais adequado para transferência do paciente a um Centro de Referência para Tratamento de Queimados, onde há estrutura especializada para esse tipo de cuidado.
Segundo dados do Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde (CNES), o Paraná conta atualmente com 23 leitos clínicos e 12 leitos de UTI especializados no atendimento a pacientes queimados. Destes, 19 leitos (seis UTIs e 13 leitos de enfermaria adulto) estão localizados no Hospital Universitário Evangélico Mackenzie (HUEM) em Curitiba e 16 (seis UTIs, quatro leitos de enfermaria adultos e seis leitos de enfermaria pediátricos) no Hospital Universitário Regional do Norte do Paraná (HU) em Londrina.
O número de leitos clínicos de enfermaria do Paraná é proporcionalmente maior que o registrado em estados como São Paulo (41 leitos), Minas Gerais (14) e Rio Grande do Sul (12), quando comparado a sua população. Já na estrutura de UTI, o Paraná apresenta oferta superior à de estados como Rio de Janeiro (10), Minas Gerais (14) e Rio Grande do Sul (4). O levantamento nacional ainda mostra que 12 estados brasileiros não possuem nenhum leito de UTI específico para essa finalidade.
“Nosso compromisso é oferecer sempre o melhor atendimento para toda a população do Paraná. No caso específico do tratamento de queimados, o atendimento especializado e humanizado é fundamental. Por isso, é tão importante que a saúde pública conte com as unidades de referência, com profissionais capacitados e estrutura adequada para esse tipo de cuidado”, afirma o secretário de Estado da Saúde, Beto Preto.
ATENDIMENTO
Quando a transferência é indicada, o hospital solicita a vaga à Central Estadual de Regulação de Leitos, responsável por identificar, em toda a rede de saúde, o leito mais adequado para o atendimento. Nos casos mais graves, o transporte pode ser feito com apoio das aeronaves do Governo do Estado, coordenadas pela Secretaria de Estado da Saúde (Sesa), utilizando aviões de asa fixa ou helicópteros para garantir rapidez e segurança no deslocamento.
O tratamento em Unidades de Referência para Queimados é fundamental para a recuperação dos pacientes. Nessas estruturas, equipes multiprofissionais especializadas acompanham o manejo das vias respiratórias, cuidados intensivos, curativos sequenciais e o tratamento de possíveis complicações, como infecções e quadros de choque séptico ou hipovolêmico.
Quando o atendimento inicial é realizado de forma adequada e em serviços capacitados, o paciente chega à etapa especializada em melhores condições clínicas, o que aumenta as chances de recuperação até a alta hospitalar.
Somente no ano passado, 1.777 pacientes fizeram procedimentos para atendimentos de queimaduras no Paraná. O número é 6% menor do que o registrado em 2024, quando 1.894 pacientes foram internados. Além dos leitos destinados ao atendimento especializado, toda a Rede hospitalar do SUS do Estado, nos seus mais de 21,7 mil leitos possui profissionais e equipamentos especializados para lidar com diversas patologias, o que inclui o tratamento e atendimento aos queimados.
INCÊNDIO EM APARTAMENTO
Recentemente, um caso ocorrido no Estado repercutiu em todo o País. A advogada Juliane Vieira, de 29 anos, moradora de Cascavel, no Oeste do Estado, permaneceu internada por cerca de três meses na UTI especializada do Hospital Universitário (HU) de Londrina após sofrer queimaduras em aproximadamente 60% do corpo em outubro do ano passado.
Ela se feriu ao enfrentar um incêndio em seu apartamento enquanto tentava salvar a mãe e o primo. Apenas a cabeça e parte das costas não foram atingidas por queimaduras graves. Durante o período de internação, Juliane passou por quase 20 cirurgias, entre procedimentos de enxerto, transplante de pele e raspagens.
A advogada recebeu alta hospitalar no fim de janeiro deste ano e segue com o acompanhamento de reabilitação. A previsão, conforme os médicos, é que o tratamento se estenda por longo período. “É um processo lento, mas eu estou viva. E isso já diz muita coisa”, diz.
O HU de Londrina é uma referência no atendimento a pacientes queimados no Paraná e conta com uma equipe multidisciplinar formada por mais de 100 profissionais especializados, entre cirurgiões plásticos, médicos intensivistas, psicólogos, enfermeiros e fisioterapeutas, responsáveis pelo acompanhamento contínuo durante todas as etapas do tratamento.
“A assistência especializada em queimados é fundamental porque esse tipo de lesão pode comprometer não apenas a pele, mas também funções importantes do organismo, como a regulação da temperatura, o equilíbrio de líquidos e a proteção contra infecções. Pacientes queimados geralmente necessitam de um cuidado complexo, que envolve manejo adequado da dor, prevenção de infecções, curativos específicos, suporte nutricional e, em alguns casos, procedimentos cirúrgicos”, relata a coordenadora de enfermagem do Centro de Tratamento de Queimados do Hospital Universitário da UEL, Elisangela Flausino Zampar.
Ela enfatiza ainda que outro diferencial dessas unidades está na estrutura preparada para esse tipo de paciente, com protocolos específicos de atendimento, controle rigoroso de infecções, curativos avançados e acompanhamento contínuo da evolução das lesões. Além do tratamento inicial, os pacientes seguem com a reabilitação, com auxílio na recuperação funcional, na mobilidade e no suporte emocional.
Atualmente, o acompanhamento do caso de Juliane envolve cuidados multidisciplinares, com profissionais da psiquiatria, psicologia, cirurgia plástica e fisioterapeutas. “É um tratamento bastante completo que ela segue recebendo”, comenta Elisangela.
QUEIMADURAS COM AQUECEDOR
Em Curitiba, um acidente doméstico levou a fonoaudióloga Terezinha Prendin Ochika, de 72 anos, residente na Capital, a precisar de atendimento especializado para queimaduras. Em setembro de 2022 ela caiu sobre um aquecedor, o que gerou queimaduras de grau 3 em uma das pernas. “Estava muito frio, eu liguei o aquecedor e quando saí do banho acabei escorregando e sofri essa queda sobre a parte escaldante do aquecedor”, conta.
Na época, ela foi socorrida e encaminhada ao Hospital Universitário Evangélico Mackenzie (HUEM), outra referência em atendimentos de queimados no Paraná. “Nesse primeiro momento fui medicada e foi executado um curativo. Eu sentia muita dor”, explica.
Com o acompanhamento médico foi constatada a necessidade de cirurgia. O tratamento somou 22 dias de internação, mais acompanhamento clínico por cerca de um ano. “Eu fui muito bem atendida, claro que também segui as orientações, mas atualmente na minha perna o que se vê de toda a queimadura é uma manchinha que nem dá para saber que foi de uma queimadura grave”, acrescenta.
O HUEM opera com sistema de ‘porta aberta’ e encaminhamentos via Central de Leitos, com 95% de sua capacidade destinada a atendimentos do SUS, o local se consolida como um pilar essencial da rede pública de saúde. O diferencial, contudo, vai além dos equipamentos.
“Temos uma equipe multidisciplinar capacitada para o manejo específico desses pacientes, desde a troca de curativos individualizados até o suporte intensivo”, afirma a cirurgiã plástica Juliane Ribeiro Mialski, uma das integrantes da equipe de 20 cirurgiões desta especialidade, além de residentes, médicos emergencistas, intensivistas, pediatras, corpo de enfermagem e fisioterapeutas.
O tratamento de queimaduras graves não é um procedimento rápido, leva tempo. “A média de tempo de internamento para quem precisa de cirurgias (desbridamento e enxertos) varia de dois a três meses, dependendo da gravidade. E, mesmo após a alta do internamento, é preciso fazer acompanhamento ambulatorial. No caso de crianças, o tempo é ainda mais longo, pois o acompanhamento ambulatorial após a alta pode durar anos para garantir que as cicatrizes não prejudiquem o crescimento e a funcionalidade do corpo”, explica a médica.
Apesar de complexo e demorado, o tratamento especializado faz toda a diferença, pois mesmo os casos mais graves apresentam índices de sobrevivência considerados eficientes. “Mesmo diante de casos gravíssimos, temos um índice de sobrevivência altíssimo, que ultrapassa os 90%. Muitos pacientes chegam em estado crítico, mas saem bem, embora precisem de cuidados contínuos até a recuperação completa”, afirma a cirurgiã.
CAUSAS E ORIENTAÇÕES
Tanto a cirurgiã plástica do HUEM, quanto a enfermeira coordenadora de enfermagem do CTQ do HU da UEL, alertam que a maioria dos acidentes que resultam em queimaduras ocorrem no ambiente doméstico ou profissional.
Em adultos, as causas principais são explosões por álcool no acendimento de churrasqueiras, fogo e acidentes de trabalho com eletricidade. Já entre crianças e idosos, a “escaldadura” (líquidos aquecidos na cozinha) é a vilã principal, mas, também estão sujeitos a acidentes como explosão de churrasqueiras no âmbito familiar, por estarem próximos a adultos nestes ambientes.
O atendimento adequado e ágil é crucial para um tratamento eficiente. E diante disto, a médica faz um alerta importante sobre o que fazer no momento do acidente: “O correto é colocar a área atingida debaixo de água corrente em temperatura ambiente por 20 a 30 minutos. Nunca se deve passar nada em cima da queimadura, nem pomada, nem pasta de dente ou receitas caseiras. Isso só agrava o quadro”, enfatizou. Após o resfriamento com água, a orientação é procurar imediatamente um serviço especializado para avaliação médica.
Elisangela reforça que não é recomendado estourar bolhas. Em casos mais extensos, queimaduras profundas ou quando atingem regiões sensíveis como rosto, mãos, pés ou genitais, é fundamental procurar atendimento médico imediatamente. “O atendimento rápido e adequado pode reduzir complicações e melhorar o processo de recuperação”, acrescenta.
Fonte:G+ Guarapuava





